Indagaram-me, há pouco, sobre o impacto da mudança nas redações dos veículos de comunicação,
vivido por quem participou do fim de uma era (da máquina de escrever) e do início de outra
(do computador). Observador descomprometido das impressões internas, recorri a texto lavrado para um outro fim:
Despertamos
um dia com a notícia da chegada das novas máquinas silenciosas e redações inovadoras,
informatizadas, para mudar a forma, a cor e a cara dos velhos jornalões (ainda
que tabloides), agilizando tudo o que até ali cumpríamos. De encontro à era do computador,
uns e outros de minha geração e gerações próximas que, “acompanhando a música”,
tinham vivenciado o ciclo da redação tradicional (barulhenta, todo mundo falando,
seguido do pipocar de máquinas tagarelas), estranhamos e fomos tomando para nós,
de inopino, o sentido da sentença “eu era feliz e não sabia”. Levamos um susto,
mas não era para tanto, vimos a seguir, vencido curto período de adaptação,
atritos, rusgas e pacificações.
A
mudança, apesar de não apresentar no começo um sistema completo, teve impacto.
Foi o primeiro contato com a máquina mágica, recém-chegada do futuro. Aos
poucos nos fomos convertendo. O teclado de leve toque e o monitor em preto e
verde apontavam o caminho do inevitável. Dentro em breve todas as redações
seriam assim. Diante disso, houve a rendição. Até uma convicta vontade de
integração, suprida em etapas por cursos que duravam semanas. Havia dissabores:
em caso de deslize, ainda que mínimo, a máquina recatada vibrava, rugia, quase
mordia desavisados. Nessas ocasiões, a gente resgatava uma saudade das velhas e
boas Olivettis e Remingtons, agitadas porém sensatas.
Puxada
para o novo contexto, a redação segurou, desde o layout, as consequências dessa
revolução central. Da grande “redaça” organizadamente tumultuada, quente, tocada
na força do braço, caiu-se para um modelo compacto, fracionado, que tanto se
adaptava a salões setorizados quanto a filas de salas separadas por corredores.
Frio, asséptico e protegido por exageros de vidraça, vitrines insensíveis ao convívio
geral, ao humor borbulhante. Nada de gritos, gargalhadas, qualquer manifestação
acima de toleráveis decibéis. Alta tecnologia é de bom-tom, requer bom comportamento.
Tudo o mais se resolve de forma impessoal, via interfone, monitores e teclas. “Made
in Cochincina”, bonitos de ver, carentes de emoção.
O
que não sacávamos era que, em nome do moderno, do conveniente, desaparecia,
junto com as velhas redações, a poesia, ou licença poética, do espírito
indomável. Minguava, ou tomava outra configuração, a cotidiana busca da
descoberta, que não raro redundava em furo de reportagem. Dando lugar a uma produção
química, de risco calculado. Bom, estava escrito que mudaríamos com a sociedade
e assim foi, mudamos. O antigo sonho de reformar o mundo, legado de gerações e
gerações de recém egressos das salas de aula, salvo honrosas exceções, cedeu espaço
a um jornalismo pragmático, às vezes burocrático, animado mais por resultados
econômicos do que sociais.
Bom, fazer o que? A
fila anda, a roda gira. E, de alguma forma, “o mundo estava reformado”.
