sexta-feira, 20 de julho de 2012


Tudo na vida tem sua hora, seu lugar, seu tempo

"Eu apenas queria que você soubesse...

                                                                         Gonzaguinha

Eu apenas queira que você soubesse
Que essa criança brinca nesta roda
E não teme o corte de novas feridas
Pois tem a saúde que aprendeu com a vida


Eu apenas queria que você soubesse
Que aquela alegria ainda está comigo
E que a minha ternura não ficou na estrada
Não ficou no tempo presa na poeira

...
Eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta
Que hoje eu me gosto muito mais
Porque me entendo muito mais também


                                                                               ah... a (por vezes) longa estrada da vida

sexta-feira, 13 de julho de 2012

A passagem do modelo

Indagaram-me, há pouco, sobre o impacto da mudança nas redações dos veículos de comunicação, vivido por quem participou do fim de uma era (da máquina de escrever) e do início de outra (do computador). Observador descomprometido das impressões internas, recorri a texto lavrado para um outro fim:

Despertamos um dia com a notícia da chegada das novas máquinas silenciosas e redações inovadoras, informatizadas, para mudar a forma, a cor e a cara dos velhos jornalões (ainda que tabloides), agilizando tudo o que até ali cumpríamos. De encontro à era do computador, uns e outros de minha geração e gerações próximas que, “acompanhando a música”, tinham vivenciado o ciclo da redação tradicional (barulhenta, todo mundo falando, seguido do pipocar de máquinas tagarelas), estranhamos e fomos tomando para nós, de inopino, o sentido da sentença “eu era feliz e não sabia”. Levamos um susto, mas não era para tanto, vimos a seguir, vencido curto período de adaptação, atritos, rusgas e pacificações.

A mudança, apesar de não apresentar no começo um sistema completo, teve impacto. Foi o primeiro contato com a máquina mágica, recém-chegada do futuro. Aos poucos nos fomos convertendo. O teclado de leve toque e o monitor em preto e verde apontavam o caminho do inevitável. Dentro em breve todas as redações seriam assim. Diante disso, houve a rendição. Até uma convicta vontade de integração, suprida em etapas por cursos que duravam semanas. Havia dissabores: em caso de deslize, ainda que mínimo, a máquina recatada vibrava, rugia, quase mordia desavisados. Nessas ocasiões, a gente resgatava uma saudade das velhas e boas Olivettis e Remingtons, agitadas porém sensatas.

Puxada para o novo contexto, a redação segurou, desde o layout, as consequências dessa revolução central. Da grande “redaça” organizadamente tumultuada, quente, tocada na força do braço, caiu-se para um modelo compacto, fracionado, que tanto se adaptava a salões setorizados quanto a filas de salas separadas por corredores. Frio, asséptico e protegido por exageros de vidraça, vitrines insensíveis ao convívio geral, ao humor borbulhante. Nada de gritos, gargalhadas, qualquer manifestação acima de toleráveis decibéis. Alta tecnologia é de bom-tom, requer bom comportamento. Tudo o mais se resolve de forma impessoal, via interfone, monitores e teclas. “Made in Cochincina”, bonitos de ver, carentes de emoção.

O que não sacávamos era que, em nome do moderno, do conveniente, desaparecia, junto com as velhas redações, a poesia, ou licença poética, do espírito indomável. Minguava, ou tomava outra configuração, a cotidiana busca da descoberta, que não raro redundava em furo de reportagem. Dando lugar a uma produção química, de risco calculado. Bom, estava escrito que mudaríamos com a sociedade e assim foi, mudamos. O antigo sonho de reformar o mundo, legado de gerações e gerações de recém egressos das salas de aula, salvo honrosas exceções, cedeu espaço a um jornalismo pragmático, às vezes burocrático, animado mais por resultados econômicos do que sociais.

Bom, fazer o que? A fila anda, a roda gira. E, de alguma forma, “o mundo estava reformado”.





A Bunda

(que engraçada!)

                                                             Carlos Drumond de Andrade

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora - murmura a bunda - esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.
A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.
A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda,
redunda


                                                                                                                                          ImagesCAIEEGXW


Corruption Perceptions Index


Lendo aqui e ali, na rede, estamos sendo levados a concluir que a profissão da moda, do momento e de futuro, é ser corrupto. Estilosos, engravatados, reluzentes, ardilosos, os corruptos povoam o topo do noticiário, com vídeos bem produzidos e fotos bem compostas. Na televisão, nos jornais e nas revistas, mostram-se articulados, eloquentes, quando não estão, por um instante, fazendo cara de paisagem. Antigamente, nos nossos tempos de estudante, o chique era entrar para o Itamaraty, fazer carreira no Corpo Diplomático. Hoje, o chique é ser corrupto. Acesso rápido por caminhos transversos e, de repente, eles surgem bem colocados na foto e na vida. Fazem sucesso alucinante e fortuna da noite para o dia, geralmente contando com o cômodo - e inconsciente - apoio popular, através dos votos de uma nação de embotados que já não pensa. Só vota. Em quem dá mais, em quem ostenta mais. O país, em tempo de eleição, lembra um grande auditório do Chacrinha ou Silvio Santos. “Quem quer dinheiro?”, “quem quer bacalhau?” A conta dos ricos shows de campanha, nós pagamos em dois, quatro, seis ou oito anos, conforme a duração dos mandatos dos corruptos em todos os níveis. Corruptos municipais, estaduais e federais. Mandatos que ainda podem ser alongados por bem sucedidas tramas, substituições, itinerâncias e/ou troca-trocas. E assim vamos nós, no rumo do fim dos tempos: um país-Titanic. Por favor, fechem comportas e escotilhas. Ou devolvam a encrenca aos portugueses, enquanto é tempo. Enquanto há “algum” para salvar, ou a entregar.

Veja vídeo de alerta no site do TransparencyIntl - http://www.youtube.com/watch?v=Udd2lJ2LZPs&feature=plcp

quinta-feira, 12 de julho de 2012

À propósito



“Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...


Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!”

                                                     Castro Alves, “Navios Negreiros” - São Paulo, 1867