sexta-feira, 13 de julho de 2012

A passagem do modelo

Indagaram-me, há pouco, sobre o impacto da mudança nas redações dos veículos de comunicação, vivido por quem participou do fim de uma era (da máquina de escrever) e do início de outra (do computador). Observador descomprometido das impressões internas, recorri a texto lavrado para um outro fim:

Despertamos um dia com a notícia da chegada das novas máquinas silenciosas e redações inovadoras, informatizadas, para mudar a forma, a cor e a cara dos velhos jornalões (ainda que tabloides), agilizando tudo o que até ali cumpríamos. De encontro à era do computador, uns e outros de minha geração e gerações próximas que, “acompanhando a música”, tinham vivenciado o ciclo da redação tradicional (barulhenta, todo mundo falando, seguido do pipocar de máquinas tagarelas), estranhamos e fomos tomando para nós, de inopino, o sentido da sentença “eu era feliz e não sabia”. Levamos um susto, mas não era para tanto, vimos a seguir, vencido curto período de adaptação, atritos, rusgas e pacificações.

A mudança, apesar de não apresentar no começo um sistema completo, teve impacto. Foi o primeiro contato com a máquina mágica, recém-chegada do futuro. Aos poucos nos fomos convertendo. O teclado de leve toque e o monitor em preto e verde apontavam o caminho do inevitável. Dentro em breve todas as redações seriam assim. Diante disso, houve a rendição. Até uma convicta vontade de integração, suprida em etapas por cursos que duravam semanas. Havia dissabores: em caso de deslize, ainda que mínimo, a máquina recatada vibrava, rugia, quase mordia desavisados. Nessas ocasiões, a gente resgatava uma saudade das velhas e boas Olivettis e Remingtons, agitadas porém sensatas.

Puxada para o novo contexto, a redação segurou, desde o layout, as consequências dessa revolução central. Da grande “redaça” organizadamente tumultuada, quente, tocada na força do braço, caiu-se para um modelo compacto, fracionado, que tanto se adaptava a salões setorizados quanto a filas de salas separadas por corredores. Frio, asséptico e protegido por exageros de vidraça, vitrines insensíveis ao convívio geral, ao humor borbulhante. Nada de gritos, gargalhadas, qualquer manifestação acima de toleráveis decibéis. Alta tecnologia é de bom-tom, requer bom comportamento. Tudo o mais se resolve de forma impessoal, via interfone, monitores e teclas. “Made in Cochincina”, bonitos de ver, carentes de emoção.

O que não sacávamos era que, em nome do moderno, do conveniente, desaparecia, junto com as velhas redações, a poesia, ou licença poética, do espírito indomável. Minguava, ou tomava outra configuração, a cotidiana busca da descoberta, que não raro redundava em furo de reportagem. Dando lugar a uma produção química, de risco calculado. Bom, estava escrito que mudaríamos com a sociedade e assim foi, mudamos. O antigo sonho de reformar o mundo, legado de gerações e gerações de recém egressos das salas de aula, salvo honrosas exceções, cedeu espaço a um jornalismo pragmático, às vezes burocrático, animado mais por resultados econômicos do que sociais.

Bom, fazer o que? A fila anda, a roda gira. E, de alguma forma, “o mundo estava reformado”.




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